24 HORAS DE MACAU – UMA MARATONA DE ESCRITA


#01 | O fim não é o princípio

C

omo começar a contar esta história se tudo o que existia se apagou? Não há um início, não há um ponto definido no tempo, nem forma de encontrar uma explicação para a sequência de eventos que em contínuo se encadearam uns nos outros. Até certo momento, não faltaram vozes a rugir que havia uma solução para todos os males. Que havia um modo de os evitar. Destruindo a ignição seria possível evitar o fim. Mas a torneira estava a correr há muito. Os geniozinhos agarrados aos seus estudos, a perderem o rasto da inteligência, com as mãos atadas, foram os primeiros a saltar do barco, afundando-se. Ninguém bateu palmas. A ciência encadeava-se na vida mundana, no delírio, a verdade centrifugava-se e vestia a realidade de um odioso mundo novo. O ser humano, essa coisa, viu-se impotente para ressurgir.

Assim, comecemos pelo fim.

Existia ainda um chão. Uma massa esférica que navegava a uma velocidade constante. Uma frenética rede hertziana de frequências que se confundia agora com o zumbido dos insectos, que a custo tentavam restabelecer a sua espécie, e mais tarde, se encontrassem o espinho de um milagre, a flora. Mas neste tempo, algures lá à frente, os verbos foram sendo esquecidos, um a um. Ser ou não ser? Não, não havia verbo ser. Tudo o que era existência deixara de ter significado, não havia sequer uma prova. Os olhares que olhavam para o horizonte tinham-se perdido. Belos, os olhos. A sensação da visão que perdurava na memória. Para poder contar. Contar o quê? As piscinas vazias, cheias de para-sóis. Os rios ainda a circularem, com um leito de matéria peganhenta. Sem vida. Sem cor. Que se desfloravam nos mares, com uma pequenina réstia de vida lá bem nas profundezas.

Os monumentos resfolgavam nas intempéries, caídos para o lado. Não foram deixadas mensagens de auxílio, nenhum foguetão saiu para o Espaço. A pressa de morrer era tanta que se esqueceu a posteridade. As lápides, os varões, os pêndulos. Nem uma régua ou um esquadro. As medidas eram inúteis.

O infortúnio foi total. Sem vida e sem testemunhos, sem ordem, para quê estar a contá-lo? Alguém vai ouvir, alguém regressará? Talvez um dia. Os homens do Ocaso.

O que ficou? Ficou muito. Retirou-se o desespero e as cidades reluziram, abandonadas. As estradas a transmutarem-se em natureza. O alcatrão a regressar ao seu mais claro composto, a alterar a sua distinta origem, moléculas de benzopireno que se encolhiam para dar passagem às raízes das árvores. A gravilha a afastar-se do líquido viscoso. O negro a colorir-se ao ser aglutinado pela fornalha da luz do Sol, que permaneceu. Os fios luminosos que palmilharam as ruínas humanas e demoraram a elevar-se, com tanto espaço inanimado por percorrer. A supremacia da grande estrela, o eixo do tudo e do nada, a ladear a vida em alegre recomeço. Será? Foi? Processos químicos, sem sombra de siderurgias, que agora se encostavam ao enfizema das ervas daninhas. O vento a percorrer parques desocupados, sem ecos, a entrar pelos hipermercados, pelos templos. Arranha-céus devolutos, obras premiadas de arquitectura. Os grandes pintores do Renascimento. Onde estavam? E as figuras excessivas das crenças, sobraram? Não, ninguém sobrou. Foi o fim. O mundo perdeu-se pela sua extremidade. E nunca mais voltou.

 

#02 | Plano geral de fuga

Há a lembrança do primeiro homem do Ocaso a chegar ao Território, ficou escrito. Envolto em mistério e em fábulas, a sua história foi narrada em sem-fins de livros. Um pioneirismo venerado para a eternidade que elevou os estandartes de uma inteira nação. Daí se vestiu uma nova era, que encobriu outra, como o resultado de uma fantasia. Põem-se os novos, não fica nada.

Veio atarantado por terra e pelos mares, este primeiro exemplar, pé ante pé, desgrenhando florestas e gente ruim. Os nativos, primeiro apanhados de pasmo pela aparência daquela figura desconhecida, cheio de sobremaneira e altivez, acolheram-no e deram-lhe alimento. Apresentaram-lhe as famílias. A raça era coisa que até aí nunca afluíra ao íntimo das suas conversações. Era apenas um homem: duas pernas, dois braços, um tronco e uma cabeça. As vestes excêntricas eram apenas apetrecho. Não o compreendiam, mas a pouco, a língua dos gestos dava azo a delicados cumprimentos e a envergonhados agrados. Risos, as mãos nos ventres, o piscar de um olho. A compreensão semeada que se estendeu e que, por aí, foi crescendo. As mãos a entrelaçarem-se com o passar dos sóis, em bonomia plena. Sem desacordos. Havia um dito mais alto que refreava outros entusiasmos. A tolerância fazia parte do dever e só assim existia fonte de consenso. O que os fazia assim? Era a natureza compassiva dos tempos. Um homem é amigo de outro homem, tenha ele que configuração tiver. No Território, nunca tinha acontecido uma batalha, nunca uma arma tinha sido empunhada. Nenhuma morte violenta fazia parte dos seus inventários, escritos à mão nos troncos das árvores. Por essa razão a vinda de um forasteiro, com o remoer dos sóis, depressa se tornou indiferença.

Mas a vida era brava e o Desconhecido tinha uma missão, tornar-se ciente dos hábitos daquele solo longínquo, classificar as riquezas existentes, orientar a populaça para outro rumo, o rumo da ânsia dos seus ascendentes. Vinha reportar, contar cabeças, alumiar um novo sentido. Chegara para descerrar as portas para os seus, que se achavam em súplica expectativa na outra ponta dos oceanos, e assim levar o Território para outras confluências. Mas deu-se que ficou aprisionado na sua contenda e, embrenhado nas contingências e virtudes do Território, nunca mais daí conseguiu sair. Contada a rigor e retirados os alvoroços do coração, a verdade é que o Desconhecido se tornou nativo, despido da integridade da sua herança e escovado do pêlo da sua alma. A História, essa, encanstrou-lhe estátuas, criou-lhe ilustres feitos, fundou datas e primórdios, mas pouco do que foi dito ou escrito corresponde à fidelidade dos factos, já que quanto ao verdadeiro destino deste homem, só muito mais tarde foi descoberto, no dia em que se arrancaram pela raiz as mais antigas árvores do Território.

Os próximos que chegaram, do remoto Ocaso, não encontraram vestígio algum da sua presença, ouviram falar de um homem bom, um homem que rompeu gargalhadas, deixando imitações, e que mais tarde se lhe perdeu o rasto. Os próximos que chegaram encontram esse homem à sua frente e foi com ele que dialogaram, foi com ele que trocaram gestos. Que coçaram a barriga e com quem comeram fruta. O desconhecido desse homem era de tal modo fascinante e exclusivo que daí partiram para uma nova incumbência, a explicação da sabedoria do Desconhecido. O primeiro tomo da enciclopédia.

 

#03 | Zona demarcada

A configuração do Território é muito simples. Uma montanha, com um sopé frondoso e extenso, por onde a malha humana se começou a desenvencilhar. A norte, uma larga e densa floresta, situada num planalto inclinado, onde o ar se confunde com a névoa e o horizonte se perde de vista. Depois vem a planície, que se prolonga até ao miasma que o separa do continente, onde foi construída desde os primórdios dos tempos uma ponte suspensa, por onde chegam os mantimentos e as contingências do dia-a-dia. Não há nada que enganar, a montanha publica de longe a imensidão da região e a floresta acena pretensões de uma vida no campo, como o pulmão de toda a região.

Chamam-lhe Rio Morto, a essa densa matéria que separa as duas partes. O lado de fora e o lado de dentro. Não há propriamente uma fronteira, os indivíduos vão e vêm à medida das suas necessidades. Para quê fronteiras? Somos todos iguais. Uns acomodam-se acolá, outros podem pernoitar no regaço de alguém, adentro, por causa de uma veia mais bebida. E amanhã é sempre outro dia. O trânsito circula sem parar. É comandado lá das alturas pela tecnologia milenar, que determina que se abram alas para que a mercadoria circule com prontidão a caminho do mercado central, um aterro comprido que se ergue todos os dias desde o despertar até ao uivo da Lua.

O governo do Território, durante séculos, não existiu, as gentes regulavam-se por si. Umas vezes mais à frente, outras vezes mais atrás, não havia grande rigor, não era importante, desde que o material não escasseasse. E nunca escasseou. Não existiam responsáveis ou verdadeiramente alguém a quem acudir. Uma entidade que ministrasse os deveres e as leis da vida. A ciência dos números ditava com inflexibilidade a sobranceria do Território e sobre os números ninguém tinha autoridade. Era tudo natural e não existia uma pessoa com dúvidas. Não existiam manifestações e protestos, ninguém atirava garrafas a arder contra a montra dos estabelecimentos. Se um residente do Território furtava uma peça de fruta, era por carência, e daí não havia grande mal. Havia a banca dos alimentos datados que se encontrava sempre disponível para suprir as vontades dos mais gulosos. Este era o espírito que se vivia em toda a extensão desta terra. Paz e indulgência. Batiam-se as asas e voava-se sempre que fosse preciso.

Se existiam ricos ou menos endinheirados? Tanto fazia. Não se olhava por esse panorama. O quotidiano acontecia sem perturbações, o equilíbrio vivia do desequilíbrio e reajustava-se, o mecanismo era infalível. Os forasteiros, sempre bem-vindos, mesmo que a sua origem fosse o Ocaso, interrogavam-se sobre como tudo isto era possível, num lugar onde a fortuna e a sorte abundavam e muito pouco falhava. Os números calculavam sempre a melhor solução. E era assim que se vivia, tanto no sopé como para lá da floresta.

A teia urbana era de tal modo construída que a complacência das outras espécies não era de todo melindrada, e a sua integração fazia parte da equação das frações numéricas. A evolução era constante. O Território transmutava-se e regulava-se neste firme lufar. Uma sabedoria do fundo dos tempos. Talvez um ente passado tenha ditado todo este esquema. Alguém que tenha encontrado na montanha e no seu sopé a verdadeira essência da vida e aqui tenha posto à prova o comportamento dos homens. Duas pernas, dois braços, um tronco e uma cabeça. Que tenha sonhado com uma configuração perfeita dos elementos. Que tenha desenhado com linhas de prumo o futuro de toda a humanidade. Ninguém sabia quem era ao certo. Existiam rumores, uma réstia de gatafunhos escritos nos troncos das árvores.

O mundo olhava para isto com espanto. O mundo que não retirava daqui nenhum exemplo e que prosseguia o seu rumo em ritmo desregrado. Perguntavam pelas marcas. “Onde estão as marcas?”, questionavam enquanto tentavam arranjar explicação circulando a palma da mão pelo ventre. Um puzzle sem peças.

Vinham os locutores testemunhar as certezas aí vividas, levavam-nas em crónicas de encantar, como um conto de ficção. Nos sofás, os espectadores atiravam ao ar a tampa de mais uma bebida. Exigiam mais, pediam sangue, pediam emblemas. Até a ignorância tomar conta deles e não saberem mais o que pedir. Queriam exibição, o alarde dos seus grandes males, definhavam por desgraças. Mulheres degoladas do outro lado do passadiço. Uma que fosse já os aguentava quietos até à próxima garrafa.

E não foi o mundo a beber do Território. O mundo irrompeu em braçadas largas e colonizou a montanha, a floresta e a planície. As gentes congénitas. E o Rio Morto começou a ganhar extensão, se isso pudesse ser possível. Mais tarde, a ponte ruiu.

 

#04 | O palácio das belas artes

Quando era puto, o Jess fornecia os remédios para as grandes festas, que podiam durar dias seguidos. Ia adquiri-los algures em resquícios incógnitos para lá da ponte. Só ele o sabia, e fazia tensões de manter esse segredo muito bem guardado. Fazia viagens para lá e para cá e vinha recheado de bombons. “São para mim, os bombons, Jess?”. Às vezes, esquecia-se do lugar que lhe tinha sido mencionado, ou não percebia bem a mensagem, e então recebia os carregamentos que vinham na corrente do mar e encalhavam perto da foz do rio. Tinham umas luzinhas verdes e brancas que se confundiam com pequenas embarcações e assim não se perdiam. A tecnologia lá em cima, apesar de ser milenar, nem sempre o achava. Não é que isso constituísse grande problema, já que não existia uma configuração para actos ilícitos no Território, mas a sede de averiguação raramente se libertava daquele poderoso engenho. Toda a gente sabia que o Jess ia buscar as suas encomendas ao estuário do rio. As luzinhas verdes e brancas traziam sempre alegria. Colocava-se o brilho debaixo da língua e os gestos davam azo a delicados cumprimentos. A envergonhados agrados.

As instâncias tinham tudo sob controle. Os festejos realizavam-se quase sempre no meio da floresta, com o reluzir dos pássaros a indicar o caminho. Não se usava o termo remédio, porque esse significado depreende sempre uma cura, e o que acontecia era precisamente o contrário, as coisas que Jess carregava serviam para causar o sintoma, para causar a maleita. Se existir uma próxima oportunidade, de voltar atrás, deverá escrever-se excitante desinibidor.

Era isso.

Caminhava-se por entre a inclinação das árvores, as copas a cobrirem as estrelas, as aves a cintilarem, com o seu rodado duplo, um atalho para a felicidade. Quando se chegava à clareira, os mais novos abriam a goela, era por eles que se dava início à paródia. Do mais pequeno para o maior, cada um expressava os seus desassossegos, libertava a sua apatia e regamboleavam até morrer. Os do meio, os de meia idade, fossem homens ou mulheres, chegavam-se nesse caso ao centro e actuavam. Eles pediam um toque. Pediam o encontro dos corpos. Um poema.

Jess observava tudo isto de longe, não fosse a penúria alheia necessitar dos seus serviços. Era puto ainda, mas com olho para o empreendimento. Andava a acabar a escola, como se a escola o pudesse completar. Era dessa forma que vivia aquilo: peça fundamental, mas do lado de fora, do outro lado do vidro. E queria parar, assentar ideias, remexer nos papéis. Não pretendia continuar para lado algum. Enquanto as pessoas se dedicavam ao regozijo, escrevia. Queria escrever o grande poema. E na escola, na floresta ou a atravessar o Rio Morto, andava sempre a examinar os números, para que mais tarde pudesse fazer parte da mesma engrenagem. Então começou a falhar. Começou a deixar que as luzes se perdessem no mar. Uma luz amarela e outra vermelha. E assim, deitou-se ao abandono e tornou-se perito na arte do falhanço.

“Jess, os meus bombons?”

Os remédios já não chegavam. Vinham inibidores do sono, terapias em vez de enfermidades. No seu processo de crescimento, a História ditou-lhe novos feitos, cheios de estátuas a regurgitar mentiras. O lugar mencionado era colocado numa tarjeta à entrada da ponte e os anciãos encarregavam-se de ir buscar a mercadoria. Os mais novos continuavam a rebolar até morrer, era a única coisa que permanecia igual.

 

#05 | Conta as personagens, uma de cada vez

Se ainda há um pouco de memória veraz neste relato, pode confidenciar-se que foi a Noémia que começou a perceber o que se passava. A entrada imoderada do mundo a planar nos céus do Território. Como os Outros, exploradores do passado, que se aconchegaram por entre as brumas do prelúdio. Almejavam comércio e rendimentos, como os que se lhes seguiram em tempos mais modernos, vieram de mansinho e quando se deu por isso, já não havia muito a fazer. Os homens do Ocaso embeiçados com o tacho. Primeiro, curiosos com o mecanismo dos números, a tentar encontrar os filamentos da engenhoca. A subornar os mercadores com remédios, com pardais luminosos, assados no espeto, que se viam melhor. Os mercados a contarem com um dia livre. Ao Domingo, quando havia tempo de sobra para o convívio. E mais festas. De vez em quando, o material a ficar perdido algures. Ninguém sabia onde era esse algures, nem mesmo o Jess, quando corriam para ele e o questionavam com todas as trocas de língua. E interrogá-lo nessa altura era um martírio. O Jess que já não se importava com os bombons.

A Noémia era astuta e percebeu as manhas do mundo. Quando lhe chegaram com uma proposta, para lhe levarem a papelaria, olhou com muita atenção e disse que ia ver. Não conhecia aqueles estranhos. Nem mesmo os estranhos se conheciam entre eles, vinham dissimulados em diferentes pacotes. O turismo era sempre assim, raramente se sabia o que estava para vir. A Noémia compreendeu o que vinha aí, e acima de tudo percebeu que não havia nada que pudesse ser feito para o impedir. Até ali, a harmonia da multidão tinha sido encontrada sem grande esforço. Sem autoridade. Não existiam gabinetes onde as firmezas da comunidade se decidiam à frente de um papel ou de uma ordem superior. A bravura, onde estava a bravura? As manifestações, o insucesso. Tudo isso estava afastado da vigência do Território. Que chegado a esse confluir dos anos, recorrente dos anais da cronologia, tinha sido ficção e que agora passava a ser autêntico, a ter um ponto assente no grande atlas. Finalmente o mundo inquietava-se com aquele pedaço de terra perdido ao redor de uma montanha e queria integrá-lo nas suas congregações. Nas uniões, nos parlamentos, nos grupos. O Território era um facto, a partir dali.

Não podendo ter o evidente ou a actualidade, a Noémia queria mais do que isso, e não ia baixar os braços. Queria sentir o peso da adrenalina a pingar-lhe da testa. “Onde estava a adrenalina?”, pensava ela. Ignorava por completo o que isso era. A hormona que garantia que o seu organismo estivesse preparado para a realização de actos de grande valor. Nunca até ali tinha feito algo que elevasse os olhos dos seus conterrâneos. Não se elevava o olhar. E a palavra realização também não era componente do seu dicionário. Nem de nenhum que por ali tivesse sido publicado. Quanto à adrenalina, era coisa desconhecida. Só o Jess tinha uma leve noção, no tempo em que as luzes piscavam.

Mas agora, seguia em frente, a mulher dos papéis, não queria que o mundo entrasse assim, disfuncional, e destrui-se a mecânica ordenada. Iria sentir prazer nisso, puxar para lá do limite, para finalmente sentir aquela energia a escorrer-lhe na garganta ao ponto de remoer as suas vísceras. Tinha dúvidas que aguentasse.

 

#06 | Simetria intemporal

Uma pedra por cima da outra. Uma mão que se entrelaça e que se junta aos dedos de outra mão. A claridade do dia, a escuridão nocturna. A água que cai da montanha para o rio. Os alicerces das árvores que comunicam entre si e transferem erudição, que piam quando se avista um inimigo. A velocidade numa curva que não pode ser nem mais nem menos do que a ideal. As rodas em cima do limite da estrada. O acelerador a chegar ao fundo, em estímulo gradual. O rival à espreita, mantido a uma distância confortável. O equilíbrio do desequilíbrio, a única forma possível de sobreviver, vem de todos os cantos e reúne-se num ponto só.

O ecrã da televisão está escuro, está a passar o breu, não tem electricidade, apenas um pouco de ressonância estática. É este o melhor programa. Começa de manhã e prolonga-se pelo dia fora. Documenta nenhures, um lugar bem conhecido de todo o pelotão que circula na face do planeta, onde apenas os mortos estão quietos. Tem um ancoradouro, onde os navegadores dormem e se encobrem na languidez de pequenas raparigas. Vivem no ano passado, como se diz, como alguém escreveu. Como o Desconhecido, que chegou e desfez uma terra inteira, imiscuindo-se nela. 

O passado, esse futuro longínquo, sempre ao volver de um novo ângulo. Hoje é uma coisa, amanhã tem uma nova aparência. Vive, perdura e remói. Quando cheguei ao Território não trazia nada disso, vinha imaculado. Nada para trás, tudo para a frente. E nada do que conhecia até aí era válido. Atraquei e abri as janelas de par em par. A brisa da noite a entrar, uma fragrância distinta, uns rapazitos que corriam lá em baixo, a lançar a sua sombra para um muro de betão erguido naquele momento, à distância do meu enésimo quarto andar. Que era aquilo?

De manhã, um linguajar desigual proferido por entre os dentes dos nativos, que me ignoravam, por me conhecerem de trás para a frente. Eu, igual aos outros todos. De armas e bagagens, ancorado a uma vida por descobrir. Puro ocaso.

Que me trazia ali? Nem eu sabia. Tinha ouvido falar no Território, um sítio sem equivalente. Vira postais da sua montanha, um denso molho de árvores por detrás a descair para um plano aveludado, onde se erguia uma cidade. Ouvira falar das suas completudes, um instrumento de precisão que determinava a sorte e o azar. Possuíam números em vez de administrações. Não existiam pastas nem normas. O princípio era idêntico para todos e toda a gente o prescrevia. Sem obrigação. E a abundância pingava por todos os lados. Que maior fascínio poderia haver para além disto? A montanha, onde ninguém se atrevia a ir. Um rio, que se desorientara e purificava em constância o remoinho das suas próprias imperfeições, e por isso morrera. O Rio Morto. E ainda assim, vive, perdura e remói.

Por tudo isso, vim. Eu que só podia falar a minha língua no ano passado. Arrancando à força as palavras da minha garganta.

 

#07 | Por onde se escondem as narrativas

Era preciso contar, relatar a perturbação das deturpações. Não se pode estar calado. Alguém pode estar calado, quando as coisas acontecem? Como sempre, eram as criancinhas que se manifestavam em primeiro lugar, agora já sem as pastilhas para a tosse que chegavam dos resquícios de nenhures. Mas a elas não se lhes dava ouvidos. Mais, eram acorrentadas a um desígnio premeditado e acabavam a perfazer os vaticínios dos cabarets. As roletas do totobola. Seres pueris sem sombra das verídicas constelações da vida.

Foi a Noémia que me instruiu para o que iria acontecer. A Noémia vendia papel. Não acreditava nas novas terminologias e persistia na venda deste material nobre. Fabricava-o nas traseiras do seu quintal, sentido o cheiro de cada folha e manuseando-o com redobrado cuidado. Tudo isto feito com grande paixão. A Noémia comercializava apenas papel feito de detritos de outro papel e era o último local onde ainda se podia encontrar essa divina matéria. Foi o que me disseram quando perguntei por papel. Torceram o nariz. “Isso já não se usa”. E depois: “Vai à Noémia!”

Encontrei-a debruçada sobre um amontoado de pasta, acumulada dentro de uma tina metálica. Figura desgrenhada. Espumava da boca. Não reparou em mim, ou não quis reparar. Falava sozinha. “Eles vêm para aí e vão destruir isto tudo, como já destruíram o deles”. Depois contou-me a história, o que a inquietava e o que pretendia fazer. Falava pelos cotovelos. Logo ali, ficámos amigos de infância. Papel feito de detritos de outro papel.

O mal estava anunciado há muito. Chuvas diluvianas, cidades inteiras em chamas, borboletas que perdiam a cor e desapareciam sem deixar qualquer vestígio. Já não batiam as asas, as tempestades do outro lado do mundo passaram a ter outra causa. Em todas as partes do mundo. E eu pensava: “Que amanhã acorde o céu. Que o ar ainda se respire.”

Nesse momento, na papelaria da Noémia, pela primeira vez, senti um encontrão com o medo. O chão a escapar-me. Uma tontura, talvez. O calor era imenso. Humidade sem espectro de relatividade. Ela falava com sabedoria e abraçámo-nos, para não cair. A última artesã do papel ainda não estava a chorar. Ainda subsistia uma fina esperança. Fina a esperança, da espessura de uma folha colhida da árvore daquele quintal.

 

#08 | Ao terceiro aviso ouve-se um sinal sonoro

Há sempre um plano. Quando se chega a algum lugar, é decerto por alguma razão, o aviso surgiu de algum lado, mesmo que tal não pareça claro e não tenha sido anunciado. A prescrição foi lida, experimentaram-se várias ocupações e nenhuma delas serviu. O nirvana não se encontra assim num copo de água. Mas acredita-se sempre na redenção. Que algum dia ela chegará e a liberdade será integral. Até lá, continua-se a provocar o destino.

Um dia, conheci o Jess. Quem não conhece o Jess? Entrou esbaforido na oficina da Noémia a olhar para todos os lados, parecia acossado. Trazia um saco de plástico branco que atirou para um canto. Disse olá e saiu, do mesmo modo que tinha entrado. “Aquele era o Jess”, disse a Noémia. Vimo-lo ainda a pegar no carro e a acelerar até ao fundo da rua, até o perdermos de vista.

Apesar de só o ter visto, conheci-o, de verdade, naquela circunstância.

Jess seguia descontrolado. Tinha planos para subir à montanha. A partir do instante em que pegou no volante e accionou a marcha percebeu que a sua vida iria mudar para sempre. O dia estava a cair, o solo brilhava ainda e atirava a sombra das árvores para cima do alcatrão aos safanões. Não havia trânsito algum. Ninguém até ali tinha tido a coragem de assumir aquela determinação. Seguia em frente. O passado não existia.

No destino, tinha esperança de encontrar a famigerada cronografia do Território, uma peça fundamental para a sua vida futura, e por essa razão apressava-se para atingir o ponto de encontro, sem ele nada feito. Sabia que era impossível seguir pela mesma estrada, teria de evitá-la. Mais tarde ou mais cedo teria que se desviar por um atalho fora de rasto e, compreendia perfeitamente, que em determinado momento teria que largar o volante e abandonar a agulha onde seguia. Iria tentar escondê-la dentro de algum palheiro, recuperando-o mais tarde para assim poder prosseguir com a sua existência de mero mortal e sair dali para fora.

Para sempre.

Não tinha a certeza de que isso pudesse acontecer, que conseguisse regressar, até encontrar um sítio para esconder o seu veículo, que por certo iria ditar as probabilidades da sua sobrevivência, já seria uma tarefa quase impossível de realizar. Era tudo a céu aberto e todo o espaço tinha sido vasculhado e numerado. Pior, estava tudo online, como se dizia. Uma pessoa munida do aparelho certo podia contemplar os seus passos. Um sinal luminoso, activado pelos satélites, assinalava a sua presença em qualquer ecrã, por mais pequeno que fosse.

Uma luz verde e outra branca. A tiritarem. A embarcação.

Ainda assim, com todas estas contrariedades, não tinha qualquer receio e iria tentar. A decisão estava tomada e já levava alguns quilómetros agarrado ao volante, a conduzir em contracorrente. Só havia um facto que podia descuidar por completo a proeza, e disso não tinha qualquer noção, porque era imprevisível, o de ter apenas uma vida. Alguém mais entusiasmado podia colocar uma moeda e fazer com que ele pudesse continuar, para sempre. Isso confundia-o e fazia-lhe uma enorme confusão. Esse era o seu único ponto fraco.

Estar nas mãos de algum homem do Ocaso.

Isto foi o que a Noémia me contou mais tarde. Falou-me também com detalhe no mecanismo dos números. Eu aludi que as nossas vidas não eram mais do que fórmulas matemáticas, que o controle era absoluto. Que detinham a configuração dos átomos de cada ser vivo. Não conhecia a superfície dessa generalização da terceira pessoa do plural. Eles. Ignorava por completo qual os verdadeiros planos do Jess. E quanto ao conteúdo do saco, foi uma surpresa o que lá encontrámos.

Aquela personagem há muito que deixara de ser um puto. Assumira, ainda sem saber, a frente da batalha.

 

#09 | Os ruídos da criação

Quando deixou o carro, escondido num celeiro abandonado, o homem que havia em Jess perdeu-se. Não se perdeu no espaço, mas dentro da sua cabeça, por causa dos sons abissais da Mãe Natureza. Havia sobras de refúgios de animais ruminantes, e com elas dissimulou a sua fuga.

Ao bater com o portão do casario, deu dois passos e atirou-se para o chão, ficando deitado a olhar o céu. A erva sempre fresca, insectos pululavam de uma futilidade para a outra. Besouros, coisas que já não via há um século. Numa árvore perto, reconheceu um pintassilgo que comunicava com outro mais além. Dizia-lhe que estava um homem, ali, deitado no chão. Que chegara num carro amarelo, pintado de revés com a sombra das árvores. Que tinha uma respiração ofegante, que precisava de ajuda. Que tinha deixado um saco branco cheio de material bélico, no canto de uma papelaria. Sob o olhar de espanto de um homem e de uma mulher. Que se amavam.

A outra ave respondia. Um camião. Pendurado no ramo de um freixo.

Falava no Rio Morto, falava na ponte que estava a ruir, se não lhe pegassem. Falava no Desconhecido, na sua estátua deslembrada numa praça recôndita dos subúrbios. De como chegou ao Território. De como guardou o segredo da sua origem. O Desconhecido, que era o princípio de tudo. Os mal-amados. Os rufias.

Um rouxinol, uma garça velha, um milhafre lá ao fundo, a caçar um coelho. Um corvo, um melro preto, um tordo ruivo. Uma íbis sagrada. Um bando de torniquetes. Um gerador de arranque eléctrico. Uma bobine sem amortecedores. Um tremor de amónia, agitada nas doze moléculas que compõem o benzeno fundido. Um pio de dimetilnitrosamina, dos animais ruminantes cozidos e defumados. O alcatrão a dar sintomas de querer derreter. E o puto dos remédios, agora já crescido, que se esquecera do seu estojo. Naftalina, ácido etanoico, uma motoniveladora. O raiar da aurora.

Era assim que os números perturbavam o homem. “Eu vos saúdo”, pensava Jess, à boa maneira árabe. Idolatrando a simples confluência numérica feita de tão poucos algarismos. A cara de uma ovelha mesmo por cima de si, a brisa suã. A mudar-lhes as ideias e a sugerir que chegara a hora de voltar à sua vida. Não havia nada a fazer. “Gostaria de poder escrever tudo o que se passa dentro da minha cabeça”. Agora, aqui, neste momento.

 

#10 | As doces colinas de papel

Da quarta vez que cheguei à papelaria, com uma desculpa qualquer, que queria comprar outro caderno, não consegui resistir e beijei a Noémia na boca. Assim mesmo, sem rodeios. Um beijo que durou uma década. Ela estava com aquele avental de borracha negro. As mãos cheias de pasta de papel, a tina metálica ali ao lado que voou pelos ares. Não sei sequer se nos despimos, voaram algumas peças de roupa. Encontrei-as penduradas no dia seguinte. Nem fechámos a loja, não houve tempo e, para além disso, já ninguém comprava papel. A doce Noémia. Queria trucidá-la desde o primeiro momento em que a vi. O meu coração a ficar em chamas, com as palpitações. Suores frios, a garganta a tremular-se. Tive de arrancar as palavras lá de dentro. Puxá-las com os dedos. “Que… que… queria um bloco de fo… fo… lhas da… quele papel…”, quando se virou para mim a perguntar o que queria. Tempos idos, antes daquele choque frontal que não mais encontrou fim.

A Noémia a sorrir. Apesar de esbaforida e revoltada. A Noémia a sorrir. Fizemos amor em cima da bancada. A tina a voar pelos ares. Não sei onde foi cair. A espessura das folhas daquele jardim, todas dentro de mim. Com uma espátula a forrar o meu fundo. Que se desflorava naquele mar, com uma pequenina réstia de esperança. A vida a crescer. Corais, nenúfares, os sons da minha natureza.

Fiz amor com a Noémia em cima da bancada. E sempre que podíamos, fazíamo-lo de novo. A tina a cair algures. Sempre. A roupa a desaparecer. Encontrava-a sempre no outro dia. Uma pele de morrer. A Noémia a sorrir. Os mais novos a abrir a goela, a iniciar a folia. Do mais pequeno para o maior. Regamboleámos até morrer.

“Já não preciso dos meus bombons, Jess!”

E o Jess a entrar, sem nos ver, a pegar no seu saco, cheio de material bélico e a fugir. A capota do carro alagada de esterco de animal ruminante. Um chocalho pendurado no tablier, para afastar o mau olhado. A adrenalina de Noémia em chamas, a escorregar por entre os dedos da minha mão. A claridade do dia, a escuridão nocturna. A água que cai da montanha para o rio.

O Rio Morto. Luzes de uma árvore de Natal encontradas a boiar dentro de uma baleia. A tecnologia milenar: “Que andas a fazer, Jess?” E o amor da Noémia a arder com o meu. A rede hertziana frenética a confundir-se com o zumbido dos besouros. Os avisos por todos os lados. A Natureza a acordar com os seus alarmes, a carregar no botão para procrastinar. Os homens de fora, de armas e bagagens, com o seu mundo a entrar por ali adentro. A vida que já não era. O Walt Whitman a confundir-se com o Nobel turco e com o Ocaso. E o Ezequiel, que conheci treze anos depois de tudo aquilo. A tina a cair no dedo do meu pé. Nada de gritos. Um tempo tão raro.

O Ezequiel apareceu a espreitar à montra da papelaria. Um dia, dois dias. Mais tarde, à porta: “Posso entrar?”
Contava-me as suas histórias e deixava-se estar. Encontrava-me na rua, deixava-se estar, e contava-me as suas histórias. A ordem era arbitrária.

“Posso entrar?”

A arte de filmar. O Ezequiel na sala de projecções a tentar sincronizar o som com a imagem em tempo real. Numa terra cheia de números e desorientações. O professor a receber os louros. Quanto daquilo era filme, quanto era verdade? As verdes colinas de África. Burros? As rondas do outro lado da ponte, a inventar armas, a idealizar resquícios, quando nem o pai do Jess ainda existia. O rio ainda vivo. O Ezequiel a escrever as suas histórias, deixando-se estar. “Não é preciso contar-me outra vez.” A debitar tudo aquilo que se encontrava aos tombos dentro da sua cabeça para dentro de folhas em branco. A eternizar-se.

Uma betoneira pendurada no ramo de outra árvore. Será que estava a chilrear?

Uma noite, o coração falhou. Tinha terminado o seu relato. Nada mais tinha para contar. Ia de carro para o hospital e não andou mais do que dez metros, abriu a porta – “Posso entrar?” – e ficou estendido no chão. A terminologia a fazer aparecer uma ambulância. Choques eléctricos, respiração boca a boca. O Ezequiel a tossir um sapo. Apesar das pilhas, a morte estava anunciada.

O rio já estava morto nesse dia. Não ressuscitou.

 

#11 | Os ares do Norte estão irrespiráveis

“Nós não herdámos a Terra dos nossos antepassados, pedimo-la emprestada aos nossos netos.”

Quando me pediram para ir reconhecer o corpo do Ezequiel ao hospital, era isto que ele tinha tatuado no peito, em redor do coração. Apontei-o num papel e mais tarde inscrevi-o na parede da papelaria. Era um ditado muito antigo dos nativos do Território. A marca foi feita entre o primeiro ataque e o segundo, a tinta ainda estava fresca, a pele ferida por sarar, que sem auxílio imunológico não se conseguiu suster. A cara minguada de sofrimento, pela consciência muda da sua extinção. O arrependimento de toda uma vida. De não poder voltar atrás. De não estar ali ninguém para colocar uma moeda e continuar.

Nessa altura surgiram os primeiros problemas com o fornecimento de água. Não chovia. Ou se chovia, a água caia em demasia e levava tudo à sua frente. Tornava-se impura. Por vezes, a pestilência do Rio empurrava a sua morte até às torneiras das habitações. Morria gente. Bebés e idosos. Para repor tudo no lugar era uma carga de trabalhos. Quando estava tudo de pé, logo surgia o auspício de outra intempérie. Em certas ocasiões, a catástrofe não acontecia, era só o alarme a dar sinal de si.

E a solução começou a virar-se para a montanha, com as suas linhas de água pura que nasciam nos picos gelados. Os homens do Norte já estavam instalados. Substituíram os do Ocaso. Sem pestanejos. Nos subúrbios crescia uma trupe de rufias, que tentava dominar pela força. E pela adrenalina, claro. Pela primeira vez, por todo o lado, começava a desenhar-se uma autoridade. A papelaria tornou-se popular, levavam resmas de papel. mas ninguém por certo iria escrever sobre o fim do mundo ou qualquer coisa parecida. O propósito era compilar pastas. Pastas em branco para o que aí viesse, e a ideia de criar um ministério entrara na ordem do dia, pela porta grande. Tínhamos uma filosofia, sim, mas agora já ninguém sabia qual era. Os órgãos da imagem continuavam a mostrar as criancinhas em manifesto, o resto, as decisões importantes que o mundo tinha que tomar, passavam em notas de rodapé.

Até ali, o Território não era exemplo para nada, pois vivera à parte, na sua pequena bolha movida a contornos matemáticos e a inspiração exacta. Mas o que vinha lá de fora depressa se derreteu neste pomar e a fruta que nasceu a partir daí era toda podre. As contas desequilibraram-se e deixaram de dar resultado certo. As álgebras desabaram.

Só a água das chuvas podia salvar a situação. Mas o céu estava limpo e o sol brilhava sorridente, dia após dia. Os tempos estavam a mudar. Tudo aquilo viera de fora.

 

#12 | Fontes, correntes e ventos

“Onde vais com esses pretos?”

A pergunta tinha a sua lógica. Eu era o único forasteiro no meio daquela gente toda e quando passei na rua principal, os rufias começaram a dirigir-se para nós. Falaram comigo porque não falavam com eles, apesar de terem a mesma origem, e davam-lhes uma alcunha para os distinguir, para que os pudessem insultar. Perguntaram isso:

“Onde vais com esses pretos?”

Já estavam com os dentes afiados e preparavam-se para me agredir. Se havia coisa com a qual não podiam, superior ao odiar aqueles que vinham comigo, era ver alguém como eu no meio deles. E isso era o suficiente para começar uma guerra. Sim, no Território essa palavra já era conhecida. Na verdade, não demorou muito para que a jura chegasse aos subúrbios, onde aquela corja tinha começado a dominar. Onde se escondia a última estátua do Desconhecido. À falta de sentido, juntavam-se numa turba e tentavam impedir qualquer aperfeiçoamento lógico. Deitavam tudo abaixo pela apatia do corpo, para se sentirem vivos. Porque não alcançavam qualquer erudição. Encolhiam os ombros. Baixavam os braços. E usavam apenas os pulsos, para expulsar a força.

O topo da montanha era terra de ninguém e era para lá que nos dirigíamos. Mais cem metros e estávamos a atravessar a floresta. Mas a realidade estava infectada com outra realidade. Papel feito com detritos de outro papel. Uma pasta humana que vociferava na sonolência de uma tina metálica, amontoando-se. Era preciso que eles compreendessem onde se encontrava a banca dos alimentos datados, para que pudessem perdurar e olhar mais à frente, a um outro ritmo.

Porém, a calma era já uma palavra desaparecida.

Assobios, pancadas desenfreadas na maquinaria, espasmos guturais, tudo servia para reunir o bando. Não íamos passar e eu não tinha nada determinado para lhes dizer. Mas não ia ceder.

“Onde vais com esses pretos?”

Foi Jess quem falou, disse: “Ele vem connosco!”

“Não vai! Aqui ninguém passa!”

As ruas enchiam-se. A Noémia encostava-se a mim, atarantada. Os pássaros voavam para longe. Os besouros, as retroescavadoras, a dependurarem-se das árvores. Choupos e eucaliptos centenários. Até ali, ainda estávamos em maioria, mas a cada passo que dávamos começava a duvidar de tudo. A achar que aquilo não era boa ideia. Aquelas pessoas precisavam de mim, eu sei. Falava por eles. E não podia ser de outro modo, tínhamos que atravessar a floresta e chegar ao destino. Só no topo da montanha podíamos tentar preservar o Território e talvez o mundo, ou pelo menos alertá-lo. Só aí se poderia chegar mais longe e comunicar, repondo a simpatia dos números. Com os que restavam. Só aí conseguiríamos resistir. Todos nós. Não havia melhor alternativa.

Os rufias há muito que tinham deixado de pensar, reagiam por impulsos primários. Fome, sede, sexo. Mas quase sempre raiva. Muita raiva. Eram indiferenciados, de todo o género, não tinham uma linhagem específica, cor de cabelo ou configuração ocular que os distinguissem, e sobretudo a pele, com tonalidades que abarcavam todo o espectro. Eram um matagal de gente, sem marca. Não havia marcas no Território. Mas das poucas coisas que os distinguia era que estavam prontos para dar a vida por qualquer coisa, a qualquer instante. Não tinham medo de nada e não possuíam um objectivo grandioso. Ao longo dos anos, espalharam-se pelos prédios abandonados dos subúrbios e foram-se multiplicando, em condições limite, onde só os mais audazes perduravam. Mas estavam sempre a um passo do lado de cá, do lado do juízo. Uma passada mais larga e tudo o que até aí tinham aprendido com o corpo passava a ter explicação na mente. Mas rejeitavam essa opção, por isso odiavam tanto os que usavam a parte superior do corpo. Era a custo de braço que os rufias tentavam ser os nossos líderes. Os impulsionadores do novo sistema.

Cinco mil braços, cinco mil pernas. Os troncos das árvores.

Os pretos, não era um termo ofensivo, simbolizavam aqueles que tinham dado o salto e que, de algum modo, o bando dos subúrbios tanto desejava ser. Tinham-lhes tamanha raiva que não conseguiam controlar o ímpeto de os ignorar por completo. O ódio que sem saberem os movia estava ali, em carne e osso. Como se toda a coloração do arco-íris se tivesse transformado apenas em massa cinzenta. Por isso, lhes chamavam pretos, dada a ausência de outra interpretação. Por vezes, usavam branco, era a mesma coisa, para designar os que queriam singrar. Os melhores clientes da papelaria. 

Ali nos arrabaldes desejavam ser apenas mais fortes. Queriam evocar a tradição de guerras antigas. Das proibições, da hegemonia de uma camisola que não envergavam, da discriminação de características distintas. Dos fornos. Do poder sem lógica. Queriam sentir-se activos. Com um propósito. E com o disco sempre riscado.

“Posso saber onde vais com esses brancos?”

Ninguém tinha ido à montanha, que se mantinha há séculos na ignorância do povo. A curiosidade era mínima, porque sempre funcionara na perfeição. Acima de tudo, lá no alto, existia o receio de encontrar o passado. Mesmo que as memórias pudessem ser boas, poucos se aventuraram a tentar chegar ao cimo daquela serra. Por mais tentativas que se fizessem acabavam sempre por voltar para trás. Jess, tinha-o tentado várias vezes, não tinha passado do limiar do chão, a ruminar outras ideias por entre os dentes.

Podia ainda haver animais domésticos, roupa estendida a secar, um semáforo embutido na crosta de uma árvore. Alguma televisão ligada, a repassar o breu, ou com chuva. Ninguém sabe. Era preciso averiguar.

Mas os rufias eram mais do que um termo ofensivo.

#13 | Não há presságios, nem almoços grátis

Como pode uma palavra ferir uma pessoa? Que sentença é essa que faz brotar a fúria cá de dentro e a eleva à brutalidade? Branco, preto, que valor, que moeda? Homem, mulher. Tinha tanto para dizer quando aqui cheguei, mas as profecias ficaram em casa. E por isso calo-me. Deixo os rumores a segredarem entre si. Gotas de água que vão caindo até ao transbordo. Porque vim? Porque fui? Encontrei amores e fiquei. Os anos passaram. Fim da história.

Agora estou numa jaula. Trouxeram-me para aqui. Quero falar e explicar que rumorejar era esse, mas não tenho o dom da palavra. Naquele dia, em que se tentava ir à montanha, uma força maior superiorizou-se empregando o seu refinado furor, a firmeza esmoreceu e cada individuo desprendeu-se do seu par, rumando de novo a vidas parcas de emotividade. Por um momento temos força, no outro tudo se perde. Somos assim. O nosso maior símbolo é uma ruína.

“Quem te disse que o fim chegou?”, perguntava eu à Noémia sempre que acordávamos enleados. Quatro pernas, quatro braços, dois troncos e duas cabeças.

“Quem te disse?”

Ela achava que não devíamos baixar os braços, que devíamos lutar até ao fim. E isto é o sentido figurado da coisa, porque creio que há a possibilidade, acredito nisso piamente, de que nos podemos reescrever. “Como?”, perguntava ela. Não havia resposta eficaz. Mas abrindo brechas, seja de que forma for tentando canalizá-las num bom sentido. Será a loucura uma anomalia ou um brio de carácter? A loucura de querer estar a bordo e em sintonia com a própria inspiração, definindo uma linha para o pensamento. As gentes que me mantinham ali não estavam satisfeitas e queriam saber mais, esperavam por mim, queriam saber com que fim eu trabalhava. Mantinham-me cativo num espaço diminuto. Interrogavam-me, puxavam pela minha língua. Mas no final libertaram-me e deram-me uma palmadinha nas costas. Um chuto no rabo. Era tempo de recolher. Cada um voltava ao seu poiso. Ao ramo da sua árvore.

Buldózeres. Armas de arremesso. Pontos finais.

“Não te disse?”

Complicada a configuração do cérebro, não se pode confiar nela. Uma máquina é uma máquina, não depreende redistribuições e deve funcionar sem reclamações, como um dirigível. Esquerda, direita. Para cima, para baixo. Queria abraçar a Noémia e ligar-me à minha base. Esquecer as premonições. O dia começava a raiar e haveria campo para mais manobras.

O Jess contava-me que quando era puto lhe chamavam Maluco. Assim mesmo, com maiúscula. Era um epíteto. Eu dizia que sabia as histórias dele, de quando tinha essas idades. Que andava para cá e para lá, a distribuir tormentos. “Não, foi muito antes disso”, replicava ele. Era essa a configuração que tinha perante os seus pares que o observavam diariamente e com quem convivia. Maluco. Havia o macaco também. Com m pequeno. Cada um tinha o seu fado. Mas essa alcunha transpôs escolas, sem que as pessoas tivessem ligação entre si, como se de uma instituição para a outra, e sempre, levasse esse cognome escrito na testa. Para que os colegas não se equivocassem e tivessem a certeza de quem é que ali estava.

Ao reflectir sobre isso, já numa fase adulta, pensava que eles estavam apenas, nas suas inocentes mentes de criança, a indicar-lhe o caminho, e o que na altura era insulto, hoje assegurava-se-lhe como um elogio. O Maluco do Jess, nunca perdera a sua configuração.

No Território, as pessoas viviam voltadas para um só lado. Para o exterior, o interior raramente contava. Importava apenas a imagem que transparecia à superfície. Tudo o resto era obscuro. E sem luz não havia certezas. Era um truque da mente. Um acto ilusório.

“Quem te disse, Noémia?”

A simbólica ruína, desfeita pelo tempo, a ocupar o espaço mais nobre. A mente também ela uma doença, uma batata que ferve por dentro. No lado que não se vê. Devemos, por isso, restringir-nos à sua condição? Devemos lutar? O problema não tinha grande resolução, porque naquela altura andávamos distraídos, ou demasiado ocupados, a tentar sobreviver.

[CONTINUA]


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INÍCIO: 19 de Março • 15H00 | FINAL: 20 de Março • 15H00

24 HORAS DE MACAU é uma prova corrida numa só pista sem intervalos, partindo de uma folha em branco e dividindo-se em 24 capítulos, que serão publicados online de hora em hora. O autor, à semelhança das 24 Horas de Le Mans, prova de automobilismo corrida em França há quase 100 anos, vai tentar levar a sua máquina até ao fim, sem acidentes, escrevendo durante todo este período de tempo. Papel e caneta digitais, são as únicas ferramentas que leva para o seu habitáculo situado na montra da Livraria Portuguesa em Macau, num exercício de escrita sem filtros e sem prescrições. Depósito cheio, acelerador a fundo e sem retrovisores.

BIOGRAFIA

24hrs of macauANTØNIO FALCÃO, produzido no Alentejo, nasceu em Lisboa, onde cresceu e aprendeu a conduzir. Adepto de corridas de automóveis, desde Pop Cross a Fórmula 1, mudou-se para Macau, em 1994, porque queria conhecer o que se passava realmente na curva do Hotel Lisboa. Mas a necessidade de encontrar uma profissão deu-lhe outros rumos. Entre outras artimanhas, foi fotógrafo, designer, jornalista, DJ, barman e abriu uma livraria, a Bloom. Escreveu e publicou em vários jornais e revistas. Regressado a Portugal, rejeitou o lugar urbano e ancorou na Costa Alentejana, onde manteve o fetiche pelas corridas de endurance. Escreveu os livros “Morri” (COD, 2017) e “O último homem em Saturno”, ainda não publicado. É escriturário oficial no Clube de Fãs de Gilles Villeneuve de Odemira.